Stan Lee, Jack Kirby e a criação do Poderoso Thor nos quadrinhos

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O mundo da produção e publicação de histórias em quadrinhos é um ambiente de características bastante peculiares. Os exemplos são muitos, mas para a finalidade deste artigo vamos focar em apenas um: em que outra área criativa poderia ocorrer a junção de três artistas de ascendência judaica para produzir uma obra que bebe diretamente na fonte da mitologia nórdica? Provavelmente, poucas. Nos quadrinhos, isso aconteceu na criação de O Poderoso Thor, personagem que surgiu na revista Journey into Mystery 83.

Essa versão do Deus do Trovão foi idealizada pelo roteirista e editor Stan Lee (Stanley Martin Lieber) ao lado do desenhista Jack Kirby (Jacob Kurtzberg), uma das mais reconhecidas duplas de criação da história da Nona Arte. A rigor, o correto seria também mencionar o argumentista Larry Lieber, irmão de Stan Lee, como parte da equipe criativa do herói. No entanto, embora importante para a criação desse e de outros personagens de primeira linha da Marvel Comics, Larry foi colocado de lado pela história oficial, que em geral credita a formulação dos maiores heróis da editora à dupla Stan Lee e Jack Kirby. É a velha história da lenda tornar-se maior do que os fatos e tornar-se a versão impressa, divulgada e aceita. E lenda esses dois ícones dos quadrinhos jamais deixaram ou deixarão de ser.

A carreira de Jack Kirby

Kirby é um dos artistas mais admirados pelos amantes de quadrinhos, especialmente os do gênero dos super-heróis, que o reverenciam como um verdadeiro deus da arte gráfica sequencial. Nascido em 1917, ele começou a trabalhar com esse meio na metade da década de 1930, quando mal havia deixado a adolescência. O ilustrador teve uma carreira longa e profícua, ligada a diversas editoras e personagens, em todas deixando uma marca inigualável. Antes de iniciar a parceria com Stan Lee, Kirby foi parceiro constante de outro grande nome dos quadrinhos, o roteirista Joe Simon, com quem criou seu primeiro personagem de sucesso, o Capitão América, e com quem produziu centenas de histórias dos mais variados gêneros. Os dois trabalharam juntos até meados dos anos 1950, quando o período de crise dos quadrinhos atingiu o seu auge, forçando ambos os quadrinistas a seguirem seu próprios caminhos, em busca de outras fontes de renda.
No entanto, Kirby não ficou longe das histórias em quadrinhos. No final da década, o desenhista retornou à Marvel Comics, ali criando diversos monstros que chamaram a atenção do público. Isso o levou a ser mais requisitado pela editora, que buscava retomar o gênero dos super-heróis. Era lá que Kirby estava em 1961, já em parceria com Stan Lee, quando a chamada “Casa das Ideias” lançou seu primeiro grupo de super-heróis, o Quarteto Fantástico. A Era de Prata dos Quadrinhos estava em pleno curso e o talentoso ilustrador ajudava assim a dar novo fôlego aos heróis e vilões superpoderosos. Nos anos seguintes, Kirby participou da criação de praticamente todos os personagens importantes que a Marvel colocaria no mercado. Credita-se a ele grande parte do sucesso desses personagens, principalmente porque o artista não se limitava a simplesmente desenhar aquilo que lhe passavam através do roteiro, mas acrescentava elementos e novos personagens, modificava enfoques e pontos de vista, agregando valor à obra quadrinhística que finalmente chegava às mãos do leitor.
Pode-se dizer que ocorreu uma sinergia entre a maneira de trabalhar de Jack Kirby e as proposições narrativas de Stan Lee. Os dois começaram a trabalhar juntos logo depois do retorno do primeiro à editora, então denominada Atlas, criando quadrinhos inspirados em criaturas como Godzilla, ou seja, de “monstros gigantescos de olhos esbulhados que querem (e podem) destruir a Terra”. Essa identificação entre os dois gerou uma forma peculiar de produção de quadrinhos, posteriormente popularizada como “o método Marvel”, na qual o artista recebe uma sinopse da história ao invés de um roteiro detalhado, tendo a liberdade para criar detalhes segundo sua própria veia criativa. É justamente nesse sistema que talvez repouse o sucesso da editora, pois ele possibilitava que seu principal criador, Stan Lee, pudesse ampliar o leque de personagens que disponibilizava ao público.

A visão de mercado de Stan Lee

É difícil acreditar, no entanto, que Stan Lee era apenas uma “fábrica de ideias”, como muitas vezes ele mesmo denomina a si mesmo e à editora (a “Casa das Ideias”) que ajudou a consagrar. Na realidade, por trás de uma mente irrequieta e criativa, sempre existiu uma aguçada visão de mercado e daquilo que poderia ou não agradar ao público, cujas demandas de entretenimento e evasão ele buscava satisfazer.
Essa, digamos assim, argúcia editorial, permitiu a Stan Lee efetivar uma guinada nos rumos seguidos pela indústria de quadrinhos norte-americana. Não, porém, algo nato ou adquirido por meio de uma visão reveladora, como muitas vezes costuma ser veiculado. Pelo contrário, essa abordagem foi construída aos poucos, durante anos de atuação como um obscuro editor de quadrinhos, apenas mais um dentre os muitos que existiam distribuídos pelas diversas casas produtoras de comic books, embasadas na reprodução de fórmulas bem sucedidas e garantindo uma meritória – ainda que, sob muitos aspectos, medíocre -, sobrevivência do meio.
Além de sua veia criativa, desenvolvida ao longo de vários anos de trabalho na indústria – onde, mesmo sendo parente do proprietário da Timely Comics, Martin Goodman, iniciou quase que como um garoto de recados -, Stan Lee destacou-se por ter uma sensibilidade muito grande em relação àquilo que poderia agradar os leitores de quadrinhos. Assim, no início da década de 1960, ele começou a propor uma série de personagens que exploravam um dos arquétipos mais recorrentes da cultura pop norte-americana, o do herói que consegue ser bem sucedido, apesar de ter todos os elementos contra si. Desta forma, contrariamente aos de outras editoras, como o Superman – um alienígena extremamente poderoso, praticamente invencível –, Batman – um multimilionário que conta com artefatos tecnológicos –, ou Lanterna Verde –, um aviador que recebe um anel extraordinário -, os protagonistas de Lee são pessoas comuns, fadadas ao fracasso. O Homem-Aranha, sua criação mais conhecida, em parceria com o artista Steve Ditko, é um adolescente mirrado, desajustado e vítima de bullying na escola. Já o Incrível Hulk, criado em parceria com Jack Kirby, é um monstro verde que só causa danos à sociedade e é perseguido pelo exército do país.

Nasce o Poderoso Thor

Ambos os personagens mencionados acima foram criados em 1962, ano em que também surgiria o deus nórdico Thor. Tal como os demais, este personagem apresentava em sua origem, como uma de suas características marcantes, a convivência aparentemente intransponível com uma situação adversa: ele é, na realidade, um médico medíocre, franzino e deficiente físico, que tem dificuldade para declarar seu amor à sua enfermeira. Mas, além disso, fazia uma relação direta dos super-heróis dos quadrinhos com o campo da mitologia, enveredando pelas narrativas dos deuses nórdicos, repletas de mistérios e fascínios.
A convivência do herói fisicamente limitado com seu alter-ego divino revelou-se uma fórmula vitoriosa, garantindo a sobrevivência do personagem quadrinhístico durante anos a fio. Também participaram desse sucesso a plêiade de personagens coadjuvantes que Lee pouco a pouco foi adaptando ou criando e acrescentando às histórias do Deus do Trovão. E os exemplos são muitos e fascinantes: o arquivilão Loki, Deus do Mal, feiticeiro e meio-irmão de Thor, que nutre pelo herói um ódio visceral e se desdobra em artimanhas para destruí-lo; Odin, o senhor de todos os deuses de Asgard; Balder, o melhor amigo do herói; os três guerreiros Fandral, Hogun e Volstagg, uma paródia dos Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas; e a deusa da Morte Hela. A esses personagens, releituras de criações lendárias ou da literatura, mesclavam-se locais e acontecimentos diretamente retirados das narrativas mitológicas nórdicas, como o reino Valhala, local para onde vão todos os espíritos dos guerreiros que morrem em combate; a Ponte do Arco-Íris, que liga os nove mundos de Asgard; e o Ragnarök, metáfora para o apocalipse.

50 anos de Thor

Desde seu início, Thor mostrou-se um personagem carismático que cativou grande número de leitores. Os traços firmes de Kirby, aliados às narrativas instigantes de Lee, que dosavam heroísmo, cavalheirismo e uma linguagem empolada – Thor utiliza um inglês shakespereano, que infelizmente perdeu todo o seu fascínio quando de sua tradução para o português -, garantiram a permanência do Príncipe de Asgard nas bancas de revistas, iniciando uma tradição que já dura quase 50 anos. Nesse período, Thor transformou-se em um dos mais importantes personagens da editora Marvel Comics, sendo roteirizado e desenhado por muitos artistas de destaque. Com o tempo, inclusive, suas aventuras foram ficando mais complexas, enveredando mais a fundo no terreno da Mitologia e deixando um pouco de lado os dramas psicológicos. Isso parece ter agradado ao público, atraindo aos quadrinhos vários admiradores das narrativas mitológicas.
Logicamente, como ocorre com todo personagem de quadrinhos que se origina de uma grande editora dedicada à produção massiva, as histórias de Thor apresentaram altos e baixos, dependendo dos artistas que por elas foram responsáveis. Mas os períodos ruins são rapidamente esquecidos pelos leitores, que preferem guardar na memória apenas aquelas narrativas de maior destaque, seja do ponto de vista de uma arte gráfica inusitada, seja sob a égide de um enredo fascinante. Nesse meio século de existência, o Deus do Trovão foi protagonista de séries ou histórias memoráveis, que até hoje fazem a alegria de muitos leitores. Entre elas, podem ser destacadas aquelas elaboradas por Walt Simonson, na década de 1980, que trouxe uma visão muito particular ao herói e introduziu personagens memoráveis, como o alienígena Bill Raio Beta, que durante algum tempo substituiu o filho de Odin.
No Brasil, Thor foi lançado em quadrinhos pela Editora EBAL, do Rio de Janeiro, em 1967, na revista Álbum Gigante. Posteriormente, teve títulos próprios pelas editoras fluminenses GEA (Grupo de Editores Associados, em 1972) e Bloch (em 1975). A partir de 1979, foi publicado pela editora Abril, de São Paulo e continuaria depois sua trajetória pela Editora Panini, já na década de 2000, atualmente a editora responsável pela publicação dos personagens Marvel no país. Em nenhuma dessas duas chegou a ter um título seriado próprio, saindo como componente de revistas com vários personagens (Heróis da TV e Superaventuras Marvel, na Abril, e Os Novos Vingadores e Homem de Ferro e Thor, na Panini), ou em minisséries especiais. Embora não tendo um título próprio, o personagem mantém um fiel número de seguidores, o que tem garantido a sua inclusão nas publicações da editora. Nada leva a crer que isso deixará de ocorrer em futuro próximo, ainda mais agora, em 2011, quando estreia nos cinemas mundiais a versão cinematográfica do personagem.
 Fonte: Omelete

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