ALGO NOVO OU MAIS DO MESMO?

Prevendo a tragédia que se abaterá sobre seu povo, um homem tido como sábio elabora um plano para livrar seu único filho do destino que levará toda sua civilização à extinção. Assim, seu primogênito é embarcado em direção à outra realidade, onde cresce sem saber de sua herança, até o dia que entra em contato com um símbolo de seu povo. A partir dessa experiência, ele “recebe uma visita astral” de seu pai e se descobre detentor de um poder derivado do sol. Agora, capaz de voar, ele atende ao chamado heróico de pessoas em perigo, utilizando-se pela primeira vez de seus poderes para ajudar àqueles que vivem no lugar que o adotou, sendo posteriormente cercado e tido como um ser sobrenatural. Assim, nasce o super-herói, onde antes existia o homem.

Se sua primeira reação foi achar que eu estava fazendo um resumo meia-boca do Superman recontado por John Byrne e Dick Giordano, não se culpe. Até mesmo eu achei que estivesse escrevendo sobre o Superman. Mas o personagem em questão é o SOLAR do roteirista mineiro Wellington Srbek, cuja origem e história foram reformuladas e relançadas pelo mesmo em 2008 (corrijam-me se errar alguma data).

O grande objetivo desse meu primeiro post não é tecer uma crítica ao roteiro ou desmerecer o talento do Srbek (é inegável para quem leu Estórias Gerais), mas para contradizer uma pequena matéria postada na revista Mundo dos Super-Heróis n.22 e que tem como título: INIMIGO DOS CLICHÊS DE SUPER-HERÓIS. Nessa matéria, a MSH afirma “como é possível fazer uma boa história de super-heróis sem seguir os clichês dos gibis norte-americanos”. Penso que isso seja sim bastante possível, contudo esse não é o caso do Solar.

A minha grande irritação com a matéria é devido ao fato que não se assume que nossa grande influência está sim nos clichês dos gibis norte-americanos; inclusive na negação desses clichês nas inúmeras sátiras (vide Angeli, Maurício de Souza… e por aí vai). E quando não se assume a relação direta dessas influências, cria-se um preconceito imenso contra aquelas outras histórias que “descaradamente” incorporam os clichês para tentar reproduzir seu encanto de infância, quer sejam as inspiradas nos Pulps, revistas de terror ou gibis de super-heróis. E não há deméritos nisso. Uma história bem contada, ainda que recheada de lugares-comuns, ainda é uma história boa e que vale a pena ser lida. Então, não entendo essa necessidade de se negar um fato tão óbvio, inclusive com a negação do que é óbvio: os quadrinhos brasileiros ainda são um reflexo daquele que se faz nos Estados Unidos (apesar de que tenho visto um aumento da influência dos quadrinhos que se fazem pelo resto do mundo).


O Solar é sim um clichê quando reconta a origem recontada do Superman, adaptando-a à realidade do Brasil. Mas também é inédita quando busca na tradição brasileira os elementos que são passíveis de adaptação à história. Reafirmo que sua qualidade não está no fato de abandonar ou usar de clichês, mas quando assumindo isso faz algo que pode ser muito bom. O Solar não é um inimigo dos clichês de super-heróis. Dizer isso, é negar uma leitura mais atenta à história ou superestimar nossa capacidade de abandonar uma influência que viceja há muito tempo no imaginário “super-heroístico” do brasileiro. Como fãs de super-heróis, ainda somos todos filhos de Action Comics #01.


Nino Camini – Disléxico, Atônito e Aleatório.


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3 respostas para ALGO NOVO OU MAIS DO MESMO?

  1. Lottus disse:

    reflexões sobre influências são, na maior parte das vezes, conflitantes. Porém, como foi bem apresentado, negar influências é abandonar importantes processos de construção.

  2. Não entendo de quadrinhos suficientemente bem, mas me lembrei de uma frase que costumávamos dizer na escola e acredito que se enquadra na realidade das artes na atualidade: "Na arquitetura nada se cria tudo se copia." Boas influências sempre são bem vindas. O importante é como empregá-las em seu trabalho. Sr. Ninovisck está de parabéns!

  3. Muito bom o texto de estréia do Nino!Esperamos muitos mais enriquecendo o blog.Seja bem-vindo e grande abraço.

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